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28.3.05
Mais um texto...

Bom, faz milênios que não atualizo esse blog tosco, e já que percebi que não tenho saco pra coisa mesmo, vou deixar ele só para publicar umas tranqueiras que escrevo uma vez a cada duzentos anos, qdo bate a inspiração. Tá aqui então minha última "obra":

Imortalidade

 

            Uns dizem que o que nos difere, como seres humanos, das outras espécies que vivem em nosso planeta é nossa capacidade de raciocínio, nossa inteligência; outros dizem que é nossa habilidade de modificar o ambiente a nossa volta, nosso habitat; mas no fundo o que realmente nos faz diferentes dos coelhos, das amoreiras e até mesmo dos mosquitos que insistem em pousar na nossa orelha nas quentes noites de verão é a consciência que temos da nossa mortalidade. Nenhum outro ser vivo sabe que, inevitavelmente, irá morrer.

            Todos nós sabemos que um dia nossa existência irá se findar. Cedo ou tarde todos nós deixaremos de respirar, nosso coração irá parar de bater e o que acontece depois disso, por mais que se especule e se aprofunde nos domínios das religiões, da filosofia e do misticismo continua sendo um mistério. Mas o que sempre assustou a humanidade não foi exatamente a morte em si, mas um de seus principais “efeitos colaterais”: o esquecimento.

            Civilizações inteiras já surgiram, floresceram, decaíram e, finalmente, foram esquecidas; logo nosso prognóstico não é muito diferente. É fato: a maioria absoluta das pessoas cai no esquecimento poucas décadas depois de sua morte. Apenas alguns anos já são suficientes para desaparecermos sem deixar vestígios ou qualquer coisa que permita a alguém saber que um dia estivemos aqui, que comemos, dormimos, estudamos, trabalhamos e torcemos pela seleção na Copa do Mundo. No máximo nos tornaremos um rosto sorridente e sem nome em alguma fotografia amarelada pelo tempo, esquecida no fundo de alguma gaveta.

            Pare para pensar por um instante: quem foram seus bisavós? Talvez você até saiba o nome de um ou dois deles, mas o que eles fizeram durante a vida? Quais eram seus sonhos? Você conseguiria escrever uma, apenas uma página com a história de suas vidas? Provavelmente não. Mas não se sinta culpado, provavelmente seus bisnetos também não conseguirão fazer o mesmo com a sua vida.

            Estarrecedor, não? Tudo o que fizemos, buscamos, realizamos e até mesmo amamos em nossa vida está condenado ao limbo pouco tempo após partimos dessa para uma melhor. Todos os nosso sucessos, fracassos, sorrisos, lágrimas, suspiros e bocejos, tudo mesmo.

            Isso sempre esteve gravado no subconsciente de cada ser humano e o principal efeito que isso teve em nosso comportamento foi a busca incessante pela imortalidade. Não da imortalidade propriamente dita, no melhor estilo Connor McLeod, da trilogia hollyoodiana Highlander, ou da imortalidade religiosa/espiritual da vida após a morte, da vida eterna em algum plano superior, mas do nosso simples e inocente desejo de não sermos esquecidos.

            A humanidade sempre buscou meios de escapar dessa sina. Parece estar gravado no nósso código genético, como uma espécie de décimo primeiro mandamento: “não deixarás ser esquecido”. É quase involuntário: qual de nós nunca escreveu o nome numa carteira escolar ou numa porta de banheiro? O que queríamos com isso nada mais era do que deixar nossa marca, um registro de nossa vida na Terra, o clássico “Eu estive aqui”. Esse ímpeto é o que nos define como seres humanos, o elo de ligação entre cada um de nós e o denominador comum de todas as civilizações. Algumas utilizavam as histórias passadas de pai para filho, contadas ao redor da fogueira, outras escreveram as odisséias de seus heróis em pergaminhos mas todas tinham o mesmo objetivo. Arrisco a dizer que o primeiro ser humano moderno propriamente dito, o primeiro Homo sapiens imortalis, foi aquele que pegou um toco de carvão e fez o primeiro desenho de uma caçada na parede de sua caverna.

            Os homens das cavernas que fizeram as primeiras pinturas rupestres, os faraós que construíram as pirâmides egípcias, os vândalos adolescentes que picham os muros na calada da noite e os políticos que dão seu próprio nome a viadutos e outras obras públicas foram e são todos movidos com o mesmo intuito: deixar alguma marca que sobreviva à própria existência, deixar algum rastro, alguma marca, enfim, tornar-se imortais.

            Os exemplos de comportamento similar estão por toda parte: em quase todo museu ou atração turística existe um livro onde se possa assinar e deixar um breve recado; já é tradição entre os ex-presidentes americanos construir uma biblioteca que, além de levar seu nome, abriga uma espécie de museu, documentando toda a sua vida política e muitas vezes pessoal. Não precisamos, porém, ir tão longe; aqui mesmo no Brasil encontramos uma fato peculiar: os escritores, ao serem eleitos como membros da Academia Brasileira de Letras recebem o sugestivo título de “Imortal”. Outro famoso exemplo histórico: ao cometer suicídio com um tiro no peito, Getúlio Vargas deixou uma carta testamento, que encerra com a célebre frase: “Saio da vida para entrar na História.” A mensagem é bastante clara: findava sua vida, mas sua marca, seu legado, seria eterno e jamais seria esquecido.

            Alguns com certeza foram mais bem sucedidos do que outros na tentativa de manter viva sua memória, mas, inevitavelmente, todos acabarão sendo relegados ao mesmo esquecimento. Digo o por quê:               

            Em alguns milhões de anos o Sol terá acabado de consumir todo seu estoque interno de energia e deixará de queimar, encerrando seu ciclo de vida, mas antes disso, como que num último suspiro, inchará e se tornará uma imensa bola vermelha incandescente, engolindo as órbitas de Mercúrio, Vênus e (adivinhe?) da Terra também. Dessa forma todo e qualquer rastro deixado para trás pela raça humana desaparecerá completamente. Ou não...

            Em 1977 foram lanças da duas sondas gêmeas com o intuito de investigar os planetas mais distantes de nosso sistema solar. Essas sondas, chamadas de Voyager I e Voyager II, após cumprirem suas missões continuariam se afastando de nosso planeta, rumo às profundezas do espaço. Sabendo disso, um grupo de cientistas, liderados pelo astrônomo Carl Sagan, resolveram transformar as duas sondas em uma espécie de “mensagem na garrafa” a deriva no espaço, na esperança de que alguém, talvez alguma outra civilização, um dia as recupere e tome consciência de nossa existência.

            Nessas duas naves foram afixadas uma placa de ouro com um desenho de um homem e uma mulher, além de uma espécie de mapa, indicando a origem da sonda. No interior foram acondicionadas algumas fotos do dia-a-dia em nosso planeta, além de um disco com saudações em diversos idiomas e duas músicas: uma sinfonia de Beethoven e o clássico do rock’n’roll Satisfaction. Quer você goste ou não dos Rolling Stones, provavelmente esse será o último testamento da humanidade.

            Já que citei Beethoven, seria ele uma exceção? Afinal, ele ainda é lembrado e suas sinfonias continuam a ser executadas pelas orquestras ao redor do mundo. Artistas talentosos (e não as atuais celebridades instantâneas, que geralmente já estão no limbo muitos anos antes de suas mortes), grandes atletas e importantes figuras históricas costumam durar tanto quanto seu legado e suas obras, porém sua vida pessoal, quem a pessoa realmente foi, tende a ser cada vez mais distorcido, à medida que o mito substitui o homem e as lendas se misturam com as histórias reais.

            Algumas pessoas, numa tentativa de realmente vencer a morte, têm buscado uma saída na criogenia e pagam pequenas fortunas para terem seus corpos congelados, na esperança de que sejam reanimados no futuro, por alguma tecnologia que poderá ser um dia desenvolvida. Seiria, enfim, a vitória da ciência sobre a morte, mas isso tudo ainda não passa de uma promessa, sendo atualmente tão promissora quanto gravar o  nome na porta do banheiro de uma rodoviária qualquer.

            Afinal, qual seria a “moral da história”? Somos todos descartáveis? Estamos todos condenados ao esquecimento? A nossa existência nesse planeta é irrelevante? Bom, parece que sim... Mas o que realmente vale a pena levar de conclusão disso tudo é que devemos viver a vida com menos preocupações, com menos “amarras” nos segurando. Não leve tudo tão a sério, viva cada momento (carpe diem!), seja autêntico, valorize suas amizades, deixe sua marca (sem se importar no tempo em que ela possa durar) e não se preocupe tanto com a opinião dos outros sobre seus atos; afinal, já que nada é para sempre (tomando emprestadas algumas palavras de Vinícius de Moraes) então que pelo menos seja eterno enquanto dure.


Posted at 12:19 am by HomemCueca

 

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